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O blusão

Martha Medeiros

O mundo fashion é assunto recorrente nos veículos de comunicação, e o mulherio agradece. Eu detesto comprar roupa, mas não nego que devoro todas as revistas de moda e sonho com o dia em que todas aquelas blusas e vestidos se materializarão no meu armário apenas com a força do meu pensamento. Faz de conta que dinheiro não é problema.

Pois bem. Outro dia me perguntaram qual é a peça que eu considero indispensável no guarda-roupa feminino. A repórter, intuindo minha provável falta de imaginação, começou a anotar “pretinho básico” antes mesmo que eu respondesse. Pode apagar, filha, não é pretinho básico coisa nenhuma.

A peça que eu acho fundamental é o blusão. Amarrado na cintura.

Você vai dizer que eu não tenho mais idade pra isso. É verdade, só que eu tenho quadris pra isso. Se você é mulher, sabe que aquilo que os homens adoram em nós é justamente o que nos faz suar nas academias para tentar perder: quadris enormes. Que, dependendo da cor e do caimento da roupa que estivermos vestindo, é possível disfarçar. Mas tem hora que não tem jeito.

Tem hora que nem Jesus salva, só o blusão amarrado na cintura. Calça branca, por exemplo. Você encara uma calça branca e um top? Eu, se sair assim na rua, sou convidada na mesma hora para integrar um grupo de pagode. É preciso colocar algo amarrado na cintura, de repente uma jaqueta jeans, fazendo o estilo despojado, assim como quem acha que vai esfriar mais tarde. Mas pode nevar que eu não tiro a jaqueta dali de jeito nenhum.

Na academia, outro suplício. As roupas de ginástica são lindas, coloridas e aderentes. No inverno, tudo bem: eu chego de agasalho, aí faço meus exercícios, e à medida que vou começando a suar, tiro-o e amarro-o você sabe onde. Mas, no auge do verão, como justificar aquele treco ali na sua cintura? O jeito é dizer que você precisa de um bolso pra colocar um lenço, o celular, sei lá, é preciso usar a criatividade, ou então desistir das roupas suplex e fazer ginástica com um camisetão até o joelho.

Por mim eu usaria um blusão amarrado na cintura até na praia. Aliás, principalmente na praia. Mas me resta uma migalha de senso de ridículo. Então eu só uso quando o blusão amarrado na cintura parece ser um simples acessório, um toque irreverente na roupa, um recurso providencial caso o tempo vire. Mas ele está mesmo é protegendo minha retaguarda naqueles dias em que nem o pretinho básico funciona.


Domingo, 26 de janeiro de 2003.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.